Você entendeu o Pesadelo na Cozinha?


O programa Pesadelo na Cozinha, da Band, é um dos subprodutos derivados do super sucesso de MasterChef Brasil (atração que, vale dizer, praticamente nunca sai da grade da emissora). Versão brasileira do Kitchen’s Nightmare, do chef britânico Gordon Ramsay, o reality show leva o francês Erick Jacquin – que talvez seja o mais carismático dos jurados de MasterChef – para prestar uma consultoria a restaurantes fadados ao fracasso para que, a partir de suas “dicas”, o empreendimento consiga se reorganizar e dar uma volta por cima.




O mote é simples e interessante, e programas desse tipo – que propõem uma makeover, ou seja, uma mudança radical, seja estética ou administrativa, em alguém ou algum negócio – costumam sempre prender a atenção de quem assiste (vide, por exemplo, consultorias como Esquadrão da Moda, do SBT, o antigo Extreme Makeover, que passava no Sony, ou O Sócio, exibido no Brasil pelo History Channel). Mas Pesadelo na Cozinha segue uma linha bastante específica e já bem explorada no MasterChef Brasil: ele oferece uma espécie de “pedagogia corporativa”, fundamentada na ordem, na produtividade, na obediência a autoridades e na busca cega pelos resultados. A ideia é a do terror, e não do acolhimento (não por acaso, o material de divulgação do programa emula Jacquin como o famoso personagem Freddie Krueger, do filme A hora do pesadelo). Nesse sentido, daria para dizer que a atração paralela de Erick Jacquin está mais perto de O Aprendiz do que de um programa de culinária.


que leva a pensar que, no fim, Pesadelo na Cozinha é um programa muito mais sobre poder do que sobre comida. O “cardápio”, de fato, está muito mais numa lição sobre um caminho de sucesso no mundo dos negócios baseado na submissão (aos chefes, aos superiores e, no fim das contas, aos mecanismos inescapáveis do capitalismo). Mas a última temporada me chamou a atenção justamente por estender esta discussão sobre poder para muito além da cozinha.





Explico melhor: na maior parte dos episódios exibidos, Jacquin visitava restaurantes em crise, em parte, pois estavam submetidos a sistemas de administração familiar. Quase sempre, os negócios eram gerenciados por um casal, e a dinâmica exibida no programa costuma replicar a mesma lógica: uma mulher que trabalha arduamente nas coxias e um homem que administra, aos gritos, uma equipe de funcionários. Neste sentido, a intervenção de Jacquin costumava ser uma espécie de aula sobre “masculinidade tóxica”: tentava, a duras penas, ensinar aos participantes que é possível obter respeito de uma equipe por meio do diálogo e não da ordem – mas, paradoxalmente, o chef ensinava isso justamente pelos gritos e pelas ameaças.


Deste modo, ainda que seja um programa extremamente estressante para a audiência, Pesadelo na Cozinha acaba cumprindo um irônico serviço à TV: reproduz em larga escala, ainda que de forma enviesada, as dinâmicas nocivas que existem para além dela. Em outras palavras, a atração se alimenta de um discurso que já está introjetado na sociedade – e fortalecido, por exemplo, por textos rasos de autoajuda ou frases de coaching – e devolve a ela de maneira bem ilustrada, ao acesso de todos. Resta saber o que nós, espectadores de reality shows, somos capazes de fazer com tudo isso a que assistimos.



FONTE: http://www.aescotilha.com.br/cinema-tv/canal-zero/pesadelo-na-cozinha-segunda-temporada-band-critica/


Maura Martins

Maura Martins é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e doutora em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo (USP). Desde 2003, é pesquisadora das narrativas midiáticas, investigando especialmente assuntos ligados à televisão, ao telejornalismo e aos encontros do jornalismo com a literatura.